Foi necessário pouco tempo de leitura para descobrir que Verão seria facilmente classificado na lista de meus livros preferidos: ocuparia, sem sombra de dúvidas, a faixa indispensável. Lançado no Brasil pela Companhia das Letras, Verão é de autoria de J.M. Coetzee, o mais proeminente escritor sul-africano vivo, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003 (“porque com inumeráveis disfarces retrata o envolvimento surpreendente do forasteiro”). O livro, por sua vez, proporcionou à Coetzee a oportunidade de estar entre os finalistas do Booker Prize, uma importante premiação literária.
No terceiro volume da série ‘Cenas da Vida da Província’, Coetzee continua a explorar passagens ficcionalizadas de sua própria vida. O livro é desenvolvido a partir de entrevistas feitas por um biógrafo chamado Vincent, que agora trabalha para publicar uma biografia do já falecido escritor sul-africano J.M. Coetzee. Além disso, Coetzee também usa supostos cadernos, entre datados e não datados, para narrar parte de sua vida, durante o auge do apartheid e após uma passagem pelo EUA.
Em meio à narrações ficcionais de terceiros sobre sua vida, transparecem corriqueiramente passagens que vão contra o regime de segregação racial que imperou e castigou a África do Sul de 1948 à 1994, como no exemplo abaixo:
Ela gostaria de oferecer a eles dois um café na lanchonete, gostaria de sentar com eles de um jeito amigo, normal, mas claro que não se podia fazer isso sem provocar uma confusão. Que chegue logo o tempo, ó Senhor, ela reza para si mesma, em que toda essa besteira do apartheid esteja enterrada e esquecida.
Em Verão, Coetzee explora ao máximo sua alta criatividade e a percepção crítica que fazem dele este grande escritor e representante do seu povo. Em meio à paixões, delírios e estranhos hábitos, Verão é, como dito, uma narração indispensável, fundamental para o entendimento da atual civilização sul-africana.
Verão- J.M. Coetzee [Companhia das Letras]
Novo lançamento do premiado autor sul-africano J. M. Coetzee (Nobel de 2003),Verão é o terceiro livro da trilogia Cenas da vida na província, composta também porInfância e Juventude. Coetzee lança mão de artifícios narrativos refinados para compor um relato de ficção autobiográfica, construído de maneira múltipla e indireta.
Quem estrutura a história é um pesquisador inglês, Vincent, interessado na vida de John Coetzee, autor que já morreu. Para escrever a biografia de Coetzee, Vincent recorre a outras fontes: os Cadernos do autor, com anotações autobiográficas, e entrevistas com pessoas que o conheceram.
O biógrafo concentra-se nos anos 1970, período que precede o reconhecimento literário do jovem John Coetzee, então nos seus trinta anos.
Nesse momento de maturação do jovem, vivia-se a plena vigência do apartheid, e John Coetzee retornava de uma temporada nos Estados Unidos.
John tem de se readaptar a um país em estado social convulsivo, ao convívio com a família tradicional, de ascendência africânder, e às desconfianças com relação ao seu comportamento excêntrico.
Os limites entre ficção e autobiografia se esgarçam nesta obra e permitem que o autor sul-africano componha um retrato admirável de si próprio, em que fala sobre suas limitações e seus desejos, sobre suas posições políticas, filosóficas, pedagógicas e estéticas. Neste excepcional Verão, não há espaço para vaidade ou autocomiseração. Ao contrário, imperam o senso crítico, a autoironia e a inventividade literária.
O programa Literatura por País – África do Sul é uma realização do Vá Ler um Livro em parceria com a Rocco e a Companhia das Letras.



