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Em entrevista exclusiva para o Vá ler um livro, o escritor de “Clarice,”, publicado pela Cosac Naify, Benjamin Moser nos contou que tem muito orgulho de sua tradução do livro “A hora da estrela”, da escritora Clarice Lispector.

A tradução para o inglês, juntamente com quatro outras obras que serão lançadas ano que vem, recebeu a proposta de ser publicada na China, “A gente tem que mostrar quem é a Clarice, com muito amor e respeito pela experiência dela. Apostamos que isso abriria portas e agora teremos Clarice Lispector até na China.” , contou  muito animado.

Benjamin ainda nos disse como tem sido seu processo de trabalho e como foi sua pesquisa para a biografia, “Eu trabalhei muito com Clarice, mas foi agora nas traduções que eu notei o quão ousada ela era. É uma coisa muito difícil reproduzi-la em outra língua. Eu sempre disse que eu não iria fazer porque eu já dediquei muitos anos à Clarice, mas não posso mais desistir.”

Confira abaixo o vídeo da entrevista (28 minutos) e também a parte escrita completa:

No que está trabalhando agora?:

Estou redigindo uma tradução da Clarice. Estou fazendo quatro obras para o ano que vem. Eu já fiz “A hora da Estrela”, mas eu estou editando outros quatro. É uma coisa muito complicada, mas eu estou adorando!

Li que você iria se empenhar em fazer essas traduções para que o público americano conhecesse ainda mais a obra de Clarice:

Exatamente, porque as traduções antigas são muito ruins. Eu sempre disse que eu não iria fazer porque eu já dediquei muitos anos à Clarice, mas não posso mais desistir. Eu já estou no meio do processo e ainda tenho oportunidade de fazer com editoras incríveis.

Você disse que sabia o quão difícil seria criar uma biografia sobre uma escritora que não é tão conhecida para as pessoas de fora do Brasil. Então eu queria saber como tem sido a recepção dos leitores depois de tanto tempo do lançamento.

Está sendo maravilhosa. A biografia foi muito lida e resenhada.

A vida da Clarice por si só é muito fascinante. Não só a sua literatura. Porém os livros dela não estavam muito disponíveis, então com esse processo de tradução as pessoas vão poder ler as coisas dela, porque já sabem quem ela é.

Você contextualiza toda a vida de Clarice com o momento histórico e religioso. Como foi essa pesquisa?

Foi ótima, eu até sinto saudades, porque ela me levou pelo mundo. Eu, por exemplo, não iria para a Ucrânia se não fosse isso. Eu conheci lugares, o Brasil inclusive, e conheci muita gente. Eu não sou uma pessoa tímida, mas também não queria incomodar ninguém.

Esses capítulos são muito doloridos. Aquela saída da família de Clarice, da Ucrânia, por exemplo, foi um exílio, muito difícil. E, por incrível que pareça, as pessoas tiveram um imenso prazer em relembrar as coisas comigo.

Em uma entrevista aqui no Brasil, a Clarice disse que era tímida, porém ousada. Você concorda?

Eu trabalhei muito com Clarice, mas foi agora nas traduções que eu notei o quão ousada ela era. É uma coisa muito difícil reproduzi-la em outra língua.

Você nunca teria coragem de colocar as coisas loucas que ela coloca nos textos, mas dá certo. E é a Clarice que consegue transformar isso em poesia. E a timidez da Clarice veio de um afastamento que ela enfrentou quando era pequena: uma situação de pobreza, os pais distantes, a morte da mãe. Ela teve dificuldades em se relacionar com as pessoas, mas sua ousadia artística é absolutamente genial. E você só vê isso quando vai palavra por palavra, frase por frase.

Se você tivesse traduzido Clarice antes da sua pesquisa para biografia, sua opinião seria diferente? O que teria mudado?

Eu acho que seria. Agora eu editei “Um sopro de vida”, que é um livro póstumo, que ela deixou em pedaços de papeis aleatórios e, então, eu acabei entendendo um pouco mais sobre ela. Muita gente costuma dizer que a Clarice é um pouco louca, mas eu sempre achei isso uma falta de respeito, primeiro porque é uma acusação dirigida, em sua maioria, para mulheres e segundo porque ela fala muito de loucura em seus livros, ela chamava isso de “o outro lado”. Mas, nesses últimos livros, eu fiquei em dúvida.

Então agora essa questão me chama muito mais atenção. Acho que eu teria investigado isso melhor. Essa loucura é uma que salva ou mata? É muito delicado, mas eu achei tão interessante. Esse equilíbrio que se transforma em algo de gênio. Mas, quando eu penso sobre isso, a Clarice me presenteia com um poema dizendo que ela sabe que pode estar louca. Então eu que fico louco.

Existem algumas biografias que insistem nessa questão de loucura da Clarice. “Clarice,” é muito diferente, ainda mais se levarmos em consideração o fato de você não ser brasileiro e se interessar pela vida de uma escritora do Brasil.

Como foi a recepção dos familiares e amigos da escritora?

Houve várias reações. Eu fui a primeira pessoa a contar sobre a história da mãe da Clarice na Ucrânia (que ela foi estuprada e acabou morrendo por conta de uma doença sexualmente transmissível) e isso chamou a atenção positiva e negativamente. Por isso houve gente que teve opiniões divergentes.

O filho da Clarice, Paulo Gurgel Valente, perdeu sua mãe muito jovem e, quando ela estava doente, ele prometeu que tomaria conta de sua obra. E muitas coisas que nós sabemos ser da Clarice Lispector são graças ao trabalho dele. O Paulo tem feito isso e ele me disse que não havia um dia, em sua vida, que ele não fizesse algo para sua mãe.

Como eu faço, de maneira muito menos importante, uma obra precisa de embaixadores. E ele achava que essas histórias sem censura e sem “falsa vergonha” deveriam ser contadas. Porém, as pessoas mais idosas têm um “tabu” sobre as histórias referentes a sexo. Porém, de forma geral, todos gostaram do fato da obra de Clarice continuar para outros países, até porque ela nunca ficou rica com sua literatura.

Aliás, você será a primeira a saber que essa última tradução que eu fiz, do livro “A hora da Estrela”,que aliás eu tenho muito orgulho, será publicada na China. A gente tem que mostrar quem é a Clarice, com muito amor e respeito pela experiência dela. Apostamos que isso abriria portas e agora teremos Clarice Lispector até na China.

 

 

E essa novidade te fez ter ainda mais vontade de traduzir Clarice?

Sim, é claro! Até porque a maioria das pessoas pode ler em inglês.

Esses dias eu conheci um letão e dei um de meus livros a ele. E ele ficou fascinado e agora está procurando alguma tradutora! E eu acho ótimo porque eu adoro fazer essas campanhas de publicidade. Alguém tem que contar essa história.

Você aprendeu português na faculdade. O que te fez se interessar pela língua?

Na verdade eu fui para fazer chinês, mas eu desisti. Eu achei tão difícil, horrível. E nosso professor havia dito “Caso vocês trabalhem muito poderão ler um jornal em dez anos”. Mas eu não queria esperar dez anos apenas para ler um jornal! E eu tive que estudar alguma língua e só português estava com as vagas abertas. Eu tinha dezenove anos e amei. Eu nunca tinha conhecido nada relacionado e essa língua me fez descobrir muitas coisas. Não só a Clarice e o Brasil, mas meus amigos que eu conheci aí ou por causa daí, etc. Então, quando eu vi a recepção do meu livro no Brasil, eu fiquei muito feliz. Considerei como um presente meu depois de tudo que esse país me forneceu de alegrias.

E você não achou o português ainda mais difícil?

Não porque eu nasci na fronteira dos EUA com o México. Então, eu tive muito contato com a língua espanhola. E as duas são muito parecidas.

Mas, o que faz língua “brasileira” é a cultura. São as músicas, os poemas, a política. E isso é uma aprendizagem muito maior. É fascinante.

E o fato do português não ser sua língua nativa dificultou seu processo com a obra da Clarice?

Dificultou sim, mas eu achei um desafio. Minha ideia era de trazer Clarice “para fora”. E eu a lia imaginando tudo que eu estava construindo, eu queria montar uma espécie de imagem dessa pessoa e dessa cultura.

Foi interessante. Eu tive que descobrir coisas sobre, por exemplo, política que não é meu maior interesse. E sem isso eu nunca teria aprendido. E isso é um valor adicional.

Eu fui desde Ceará até Porto Alegre, aí no Brasil, e aí as pessoas amam Clarice. E isso dá um impulso! Foi uma inspiração.

Qual foi o momento que mais te marcou em sua pesquisa?

Acho que foi a ida à Ucrânia, até porque nem a Clarice viu.

E lá você vê um lugar do mundo totalmente perdido. E você pensa: “como seria isso na cabeça dela?” Porque o lugar onde você nasce, mesmo indo embora no dia seguinte, te leva uma curiosidade para o resto da vida. Ainda mais quando foi á que seu avô foi assassinado, sua família exilada, sua mãe violentada. Era a origem dela, foi muito forte ver isso.

E o que te fez se sentir ligado com Clarice quando a leu pela primeira vez?

O primeiro livro que eu li foi “A hora da estrela”, que eu traduzi agora. Lembro que eu abri na introdução, onde ela fala dos músicos que habitam sua vida, e vi o arquivo onde estavam os treze títulos possíveis que a obra poderia ser nomeada. E então eu fiquei totalmente vendido à Clarice. Eu tinha dezenove anos naquela época (e agora tenho 35) e já passou quase a outra metade da minha vida.

Lembro ainda que peguei uma tradução inglesa e achei horrível,  alterada. E eu tive uma paixão para compartilhar, um amor. Mas, eu não sabia que ficaria tantos anos compartilhando isso. Mas, eu acho que valeu. E espero que um dia, aqui fora, haja outro estudante que pegue a obra de Clarice e fique maravilhado. A gente tenta tudo, né?

 

Clarice, - Benjamin Moser [Cosac Naify]

Com o título Clarice, (lê-se “Clarice vírgula”), a Cosac Naify publica a mais completa biografia de Clarice Lispector, escrita pelo norte-americano Benjamin Moser. Resenhada com destaque pela imprensa estrangeira, como o jornal The New York Times e a revista The Economist, a obra revela, pela primeira vez, aspectos fundamentais na trajetória da escritora, desde a origem miserável e violenta na Ucrânia – para onde o autor viajou – ao reconhecimento crítico. A partir dessa pesquisa inédita, Moser tece relações entre a vida e a obra da brasileira – assim fazia questão de ser reconhecida – numa narrativa envolvente. O livro tem aberto os olhos internacionais para a literatura de Clarice Lispector, até agora restrita a alguns meios.

Escritor, crítico, editor e tradutor, Benjamin Moser nasceu em Houston, em 1976. Graduado em história, fala seis línguas, entre elas o português, que aperfeiçoou durante uma estadia no Rio de Janeiro. É colunista da Harper’s Magazine e colaborador do The New York Review of Books.

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Em 12/12/11  |  Entrevistas, Escritores, News

Tatiany Leite Jornalista, viciada em literatura (do tipo: não vive sem) e a todo momento pode ser encontrada com um livro (ou mais) colado aos óculos. Fez parte do projeto Tudo de Blog da Revista Capricho (2009) e atualmente trabalha como assessora de imprensa e mídias sociais na editora LeYa.
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