A Livreira de Paris – coluna por Hillé
“Ao contrário da maioria dos livreiros de hoje em dia, Sylvia Beach encorajava os fregueses a examinar os livros. A Shakespeare and Company não era só um negócio, mas uma causa, a causa da literatura da melhor qualidade.” – James Laughlin, poeta norte-americano
Nascida em 1887, no estado de Maryland, Estados Unidos, Sylvia Woodbridge Beach fez sua primeira viagem à Paris no ano de 1900, acompanhada por seus pais. Anos mais tarde, movida por uma intensa paixão literária, ela decide retornar à cidade para produzir sua própria obra e ter contato direto com os poetas e escritores franceses daquela época. O que ninguém poderia imaginar era como à ida da jovem Beach para a capital francesa seria emblemática não só para os parisienses, mas também para um grupo de escritores expatriados, batizado por Gertrude Stein como “geração perdida”.
Entre os anos 20 e 30 era constante o fluxo de artistas norte-americanos e britânicos que circulavam por Paris a procura de um lugar onde pudessem debater e explorar suas idéias. Atenta ao perfil do público, Sylvia sentiu a necessidade de criar um espaço especializado unicamente em livros de língua inglesa. “Há muito tempo eu queria abrir uma livraria e àquela altura a coisa já se transformara numa obsessão”, revela Sylvia em sua autobiografia. Com a ajuda da amiga livreira (e futura amante) Adrianne Monnoier, no dia 17 de novembro de 1919 era inaugurada na rua Dupuytren a Shakespeare and Company. Meses depois, a livraria mudaria definitivamente seu endereço para a rua de l’Odéon, onde permaneceria com suas portas abertas até 1941.
A idéia inicial de Sylvia era proporcionar um espaço semelhante ao de uma biblioteca, onde as pessoas pudessem pegar livros emprestados mediante a um pagamento mensal. Porém, devido à grande procura e circulação dos livros, a Shakespeare and Company passou também a vender exemplares de suas obras. Além disso, o lugar virou ponto de encontro de pessoas como F.Scott Fitzgerald, Henry Miller, T.S Elliot, Ezra Pound e tantos outros. Todas as noites, escritores se reuniam para leituras de textos, debates ou simplesmente para jogar conversa fora ao som de jazz. Em Paris é uma Festa, Hemingway fala um pouco de como era o ambiente da livraria: “Um lugar quente e amistoso como uma grande estufa no inverno. Mesas e prateleiras com livros, novos livros na vitrine, nas paredes, fotografias de escritores famosos, vivos e mortes.”
Engana-se quem pensa que Sylvia Beach ficava em seu escritório, atrás de uma mesa, apenas gerenciando a livraria com um cigarro entre os dedos. Ao contrário, o fato de a Shakespeare and Company ter se transformado em um epicentro do modernismo literário na Paris do entre – guerras, deve-se, sobretudo, a personalidade carismática de Beach, que sempre fora uma leitora voraz e fazia questão de compartilhar seu bom gosto com a freguesia. Ela não apenas vendia livros, ela os apresentava e pedia ao cliente que degustasse a obra antes de comprá-la. Para incentivá-los, Beach espalhou pelo interior da loja confortáveis poltronas adquiridas em mercados de pulgas.
Mas foi em 1922 que a Shakespeare and Company e sua fundadora cravaram definitivamente seus nomes na história da literatura. Ao saber que o romance de um de seus clientes mais assíduos (ele chegara a transformar a livraria em seu escritório particular) estava encontrando dificuldades para ser publicado, Sylvia Beach não só editou a obra (recusada anteriormente por Virginia Woolf), como também bancou sua publicação. O cliente? James Joyce. O livro? Ulysses.
Por capricho do destino, em 1941, durante a ocupação germânica em Paris, um oficial alemão, fã de Joyce, quis comprar o exemplar autografado de Finnegans Wake que estava exposto na vitrine. Diante da recusa da proprietária, ele ameaçou voltar para fechar o estabelecimento e confiscar todos os livros do local. Em questão de horas, Sylvia e seus amigos removeram todo o acervo da loja e a Shakespeare and Company deixara de existir.
Sylvia permaneceu em Paris até morrer, em 1962. Em 1964, George Whitman, proprietário da livraria Le Mistral, rebatizou o local como Shakespeare and Company, em homenagem a Beach, sua amiga pessoal. “Be kind to strangers, let’s they’re angels in disguise” (Seja gentil com estranhos, pois podem ser anjos disfarçados) é o lema da S&C de Whitman. Atualmente, em troca de algumas horas de trabalho, aspirantes à escritores podem passar uma temporada morando na livraria e respirando o pó de velhos livros. Irresistível, não?
Para saber mais:
Shakespeare and Company, Uma Livraria do Entre-Guerras:
Hillé Puonto é nossa colunista quinzenal e escreve para o Manual prático de bons modos em livrarias.







Oi Tatiany eu indiquei o seu blog para responder um meme Literário, passa lá no blog pra conferir ok !http://livros-filmes-e-afins.blogspot.com/2011/10/meme-literario.html Qualquer dúvida me avisa?
[...] para ser editado pela também americana Sylvia Beach, proprietária da Shakespeare and Company, famosa livraria e outro importante endereço para a cultura parisiense . Se a leitura de Ulisses é um desafio para muitos – esse humilde blodegueiro incluído – há [...]