Desde cedo envolvido com a literatura e arte marginal (ou independente), Cristiano Onofre, autor de “Câmera lenta”, em visita a São Paulo para o lançamento do mesmo, nos cedeu uma entrevista antes de seu retorno para o Rio de Janeiro.
O livro é formado por contos, o que é ressaltado na contracapa de forma direta “três contos, situações horríveis, personagens reais até demais”. Entre problemas técnicos com gravador e câmera, confiram o que ele dividiu conosco sobre sua vida, seu percurso literário e informações sobre sua publicação:
O “Câmera Lenta” é composto por contos; sobre qual assunto eles falam?
O primeiro conto trata sobre a vida de um rapaz chamado Jaime, que acorda após ter ficado 5 anos em coma, vítima de um atropelamento. Junto ao Jaime, existem outros personagens, e cada capítulo é narrado por um deles em primeira pessoa; no decorrer, as histórias e os personagens se cruzam em determinados pontos da narrativa.
Já o segundo, conta a história de um rapaz que volta para se vingar de um abuso sexual que sofreu quando era criança.
O terceiro é relacionado com o primeiro, então se eu contar, estraga um pouco (risos).
De onde você tira inspiração para escrever e quais suas influências?
Ah, da vida… por exemplo, hoje enquanto vinha para a entrevista um cara tentou suicídio se jogando no trilho do metrô e ficou tudo parado. Esse é o tipo de coisa que te faz pensar “pô, tem coisa nessa vida que precisa ser relatada”, as particularidades do cotidiano são tão medonhas, cruas e sombrias; é esse tipo de coisa que me inspira a escrever. A inspiração não vem da beleza da vida, vem quando alguma coisa me choca, como hoje, se eu tivesse papel e caneta na mão teria escrito um conto vindo para cá. É mais no fundo do poço que eu encontro vontade de produzir algo, vem da tristeza, da melancolia. Se eu estou feliz, vou aproveitar a vida, não vou ficar escrevendo ou desenhando.
[após a entrevista, Cristiano complementou: No dia eu disse que ainda não tinha escrito nada, mas adivinha só, no momento eu estou escrevendo um texto baseado naquele dia, para você ver como são as coisas. Nunca seguem uma linha certa.]
Então, você não costuma andar com um caderno ou bloquinho de anotações?
Eu até deveria me preparar mais para esse tipo de coisa, mas nunca me preparo (risos). Mas quando é uma coisa bem chocante guardo fácil na cabeça, se eu chegar em casa e vier isso a mente, vou escrever sem precisar ter anotado nada. Acho que quando a ideia é boa e te inspira não precisa nem anotar, vai ficar na sua cabeça martelando até o momento de você passar para o papel.
Você tem o costume de ler muito, e essa leitura influencia na sua escrita?
A toda hora. Quadrinho, livro, fanzine, jornal, blog… deu para ler, eu leio.
Quanto à influência, claro! E não só livros, mas também filmes, músicas… Comecei a escrever o Câmera lenta depois que comecei a ter mais contato com o cinema coreano; por exemplo, A trilogia da vingança, Oldboy [ambos de Park Chan-Wook]. Coisas assim me trazem inspiração porque aquilo também é arte, né. Tem filmes que são melhores do que muitos livros (sem querer comparar cinema e literatura); quero dizer que a gente é fruto do que a gente leu e viu. Por isso, nem gosto muito de falar “ah, essa é a minha história”, não tem essa, aquilo é o que eu vi, assisti, li, rola uma construção antes disso.
Este é seu primeiro livro, certo? Antes dele, você escreveu em outros locais, mídias?
Livro, sim, mas escrevi fanzines desde moleque, publiquei em blogs meus ou coletivos. Esse ano mesmo (ou no fim do ano passado, não lembro) publiquei um zine chamado “Alguns dias na cidade esquecida”, online e gratuito para download.
Bom, tenho uma banda… comecei com esse negócio de arte com o punk, quando conheci o “faça você mesmo”, eu vi que eu não precisava esperar que surgisse uma banda legal pra ouvir, vi que eu podia fazer uma que eu quisesse ouvir, se queria ler um quadrinho que não existia, não ia esperar alguém criar, eu fazia um quadrinho que me agradasse.
Você é professor; qual a sua especialização? Sua profissão colaborou de que forma para a sua entrada na literatura?
Sou professor de literatura, tive formação em letras, e estou terminando a pós-graduação em estudos literários. E isso colaborou do jeito mais controverso possível (risos); quando se está dentro da academia se vê muita gente te dizendo o que é certo, um tanto de cara que fez doutorado e acabou esquecendo a essência de como aquilo funciona, e só fica na regra.
Quando eu era moleque, tive um professor de literatura no ensino fundamental que pegou um dos meus zines e usou na aula como um exemplo “do que não era literatura”, dizendo que não tinha métrica nem nada… Ele me deu inspiração para fazer o que faço hoje, porque como não quero ser aquele tipo de pessoa, quero ser exatamente o contrário, exatamente o que ofende aquele tipo de pessoa. E é isso que eu sou, o cara que vai fazer zine, literatura marginal, publicar livro de forma independente, botar livro na livraria pros outros “roubarem”, quero é chocar esse cara mesmo.
Dentro do universo acadêmico (assim como em qualquer outra esfera) a gente conhece muita gente desse tipo. E essa gama de gente me inspira a provar pra eles mesmos que estão errados e que o senso artístico deles é lamentável, que existe todo um mundo independente/marginal que pode ser muito bem explorado.
Então, esse professor te serviu como impulso para entrar no mundo literário?
Não exatamente, ele me inspirou a continuar sem precisar ter um padrão. Porque até então eu achava que se eu quisesse ser escritor teria que “ser bom”. Se o cara é professor de literatura vou levar meu trabalho para ele dizer se sou bom ou ruim, e aquilo foi o choque que me fez enxergar que não preciso de alguém graduado dizendo se eu era bom ou ruim. Talvez eu seja, talvez eu não seja, não sei, prefiro fazer algo verdadeiro e ruim a fazer na métrica “corretinho e bom”, porque pra mim não vai ter nada de mim naquilo, vai ser um instrumento de venda, e não é isso que eu sou.
Como você começou a se interessar por literatura? Quais livros te pegaram de jeito e você pensou “é isso, quero escrever um também”?
Desde moleque minha família me enfiava gibis por guela abaixo, fui alfabetizado em casa pela minha mãe e desde então, sempre li muitos livros e quadrinhos. Mas a vontade de ser escritor bateu mesmo foi quando eu percebi que podia ser escritor. Quando descobri todo esse universo do d.i.y. dentro do punk, que me mostrou que eu podia publicar zines, que não precisava de uma editora tradicional pra lançar um livro, assinar com uma grande gravadora pra ter uma banda, que não precisava ter um empresário pra organizar um show.
Depois de interagir com todo esse ambiente autônomo do punk, era óbvio que uma hora ou outra eu ia cair na literatura, que sempre foi o meu fraco (ou forte, sei lá).
Você já fez o lançamento no Rio e em São Paulo, fará em outros lugares?
Pretendo. Todos os lançamentos que estão rolando são produzidos de forma independente por coletivos, ong’s… Geralmente são promovidos por amigos.
Tem datas já pro nordeste e sul, mas por enquanto não estão sendo divulgadas.
Após terminar o lançamento deste, já tem algum outro projeto para um próximo livro?
Projetos a gente sempre tem né, cada momento do dia surgem ideias para uma coisa nova. Sou meio workaholic do que não presta, sempre estou mentalizando zines, colagens, desenhos, contos… Acho que o dia em que eu parar de pensar nesse tipo de coisa, morro.
Livro mesmo ainda não, mas estou tendo a honra de produzir um zine novo em parceria com o Kauê Garcia, que é um dos caras mais sinistros da arte punk no Brasil, pelo menos para mim. Vai sair pra download também.
De que forma você faz a divulgação e venda do Câmera Lenta?
A divulgação é feita praticamente toda pela internet e pelo boca-a-boca. A venda eu faço por correios, ou de mão em mão nos lugares onde vou lançar o livro. Sabe como é, não tenho nem conta em banco, não dá pra formalizar demais a venda.
Além disso, também uso uma maneira de divulgar/distribuir o livro que, pelo que percebi, acabou se tornando uma assinatura da coisa: deixo algumas cópias escondidas em livrarias de grande porte e comunico o fato pelo meu tumblr/internet, a galera vai lá e “rouba”.
Esse mês eu estou fechando com a Editora NerdPress, que vai fazer o lançamento da segunda edição do Câmera Lenta, que conta com dois contos a mais que a edição original, fora alguns materiais extras. O preço vai continuar barato e a divulgação marginal, como tem que ser!
Para conhecer mais sobre o trabalho de escrita e ilustração do Cristiano Onofre basta acessar seu Tumblr, e aos interessados em adquirir seu livro ou fanzines, o contato é: cristiano_onofre@hotmail.com
Como forma de incentivo a literatura marginal, o Vá ler um livro promove o sorteio do “Câmera Lenta” para 3 ganhadores.
Para participar:
+ Basta seguir o @valerumlivro e dar RT na seguinte frase: “Quero ganhar o Câmera Lenta que o @valerumlivro junto com @cristianoonofre estão sorteando! bit.ly/Knu4vn #SorteioLivroMTV “
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O sorteio vai até o dia 5 de junho. Boa sorte à todos!!!







Quarta-feira, 4 de julho 





























